Wednesday, October 18, 2006


O DURVAL**




Estudávamos na escolinha o Maroquinhas. Meu primeiro dia de alfabetização foi desastroso. Tinha saído de casa às pressas, pois a buzina do transporte escolar soara e ao entrar já me sentia apertado. Já em sala de aula me bateu uma vontade insuportável de ir ao banheiro. Tia Lucila, estou apertado, a tia me deixa ir ao banheiro? Isto dito ouvi os outros meninos rirem-se de mim. A tia Lucila era linda, de olhos azuis, alta, de cabelos longos, mas, tinha um grande problema: não ouvia direito ou fingia não ouvir. Podem imaginar o tamanho da vergonha? Pois foi, molhei toda a calça, a cadeira, o caderno que estava por debaixo da cadeira e o chão. E, como se não bastasse, o Alex, meu vizinho e amigo de bola, ria-se soltando sonoras gargalhadas; ora olhava para mim apontando aquele dedão gordo e arengueiro me chamando de mijão; ora chamava a atenção da professora que notou e me levou a secretaria. Já para a secretaria, seu moleque! Disse a professora me dando uns puxões de orelhas enquanto as outras crianças, em euforia, gritavam: O Pedrinho fez xixi nas calças, o Pedrinho fez xixi nas calças, o Pedrinho fez xixi nas calças... E, ao passar pela porta, ainda sendo puxado pelas orelhas, eu só repetia: Tia Lucila eu... tia eu avisei que...
Que vergonha, no meu primeiro dia de aula, o que irão dizer aos meus pais... Eu, muito bem sentado na primeira fileira, agora passarei a ocupar a última fileira. Ao lado logo de quem, do brigão do Durval? Essa não. Disse baixinho para a tia Lucila que não me ouviu, enquanto a diretora Rita, de óculos de fundo de garrafa, escrevia em minha agenda advertências para minha mãe. Logo no primeiro dia? Indaguei a mim mesmo.
Voltei à sala de aula a dez passos a frente da tia Lucila. Parei defronte à porta da sala e entramos juntos, ela linda e surda, eu todo vermelho e com lágrimas que me escorriam pelo rosto. Sentei, assim como ordenou a diretora Rita, na última fileira ao lado do peste do Durval, todo sujo com sua baladeira escondida no cós da farda, com as bolas de gude que, certeza tinha eu, eram as minhas. Me encarou e disse: Te pego na saída, mijão!
Outro dia (não me lembro bem o dia) ele tomara as minhas bolinhas de gude na rua lá de casa e prometera me dar uma sova se me encontrasse outra vez. E agora o que faço: gritar pela tia não adiantaria nada, pois se da primeira fileira ela não me ouviu (ou fez que não ouviu) o que dirá da última? Se corresse, pior ainda. Pra completar meu desespero, meu pai, ordenou que se eu chagasse em casa reclamando ter apanhado de outro menino na rua ou na escola levaria outra surra para aprender a não levar desaforo pra casa.
A sirene do recreio soou e não deu tempo nem mesmo de copiar a tarefa. Todos já haviam agarrado suas lancheiras, o Alex meu vizinho, os irmãos gêmeos Victor e Daniel, da casa da piscina, onde após a aula iríamos tomar banho, e até mesmo a lesa da Miranda, todos correram para o pátio. Quando levantei a cabeça, vi aquela mulher enorme, linda e surda, gritando: Você só poderá ir ao recreio, Pedrinho, quando copiar as tarefas! Ouviu Pedrinho? Dei aquele suspiro, prendi o choro e respondi: Sim senhora! Ela pegou a minha agenda, virou-se e saiu. Ao cabo de alguns minutos entrou o peste do Durval, tomou a minha lancheira, eu quis gritar, ele me deu um pontapé abaixo do joelho e disse que se eu gritasse seria pior, me olhou a fundo nos olhos, tomou meu caderno e, com aquele gesto de menino mau, rasgou a folha em que eu acabara de copiar a tarefa. Afastou-se e completou: Se você enredar à tia Lucila ou à diretora será pior, mijão. Rio e saio repetindo: O Pedrinho é mijão-ão, o Pedrinho é mijão-ão...
Fiquei furioso por estar isolado na última fileira, por terem me apelidado “o mijão da escola”, por não ter ido brincar no recreio. Afinal, eu não merecia e fazer xixi é natural, todo mundo faz xixi. E quem de vocês não tiver passado por uma dessa na vida, ou uma mais ou menos parecida com essa, erga o braço ou corra direto para o banheiro. Foi por essa indignação que eu lembrei que o Alex trouxera junto aos cadernos (dentro da mochila) uma dúzia de bolinhas de gude de aço que ele comprara ao Manoel da mercearia. Lembrei também que se eu me desse mal nessa briga, uma outra peia estaria garantida ao chegar em casa, meu pai não perdoaria. Levantei da carteira e fui revirar a mochila do Alex, encontrei as bolas de aço junto a uma camiseta que ele sempre trazia na mochila, arrumei as bolas dentro da camiseta, depois dei um nó bem forte e disse a mim mesmo: Deixe estar, deixe aquele tal de Durval vir arengar comigo que ele verá o que lhe acontece. É hoje que lhe cai a crista de galo de rinha, deixe estar.
O segundo tempo soou. Os meninos entraram em algazarra, todos corriam e se jogavam no chão da sala para espiar a cor da calcinha da lesa da Miranda. A aula era a que eu mais gostava, português. O Durval entrou por último, sentou ao meu lado e foi logo arengando: O Pedrinho é mijã-ão, o Pedrinho é mijã-ão e vai apanhar-ar na saída-da. Escondi as bolinhas de aço entre as minhas pernas, ele nem percebera o saco de pano que eu prepara para ele. Fechei os olhos, travei os dentes e pedi que ele repetisse: Repete se for homem? Ele deu um sorriso canalha, olhou para mim.... O Pedrinho é mijã-ão e agora-ra o que ele vai fazer-er. Dito isto, agarrei o saco de pano com as bolinhas de aço e o acertei de cheio na cabeça. O Durval, o brigão da sala, da rua lá de casa, tinha ido ao chão. Naquele momento, os meninos gritavam: Vai Pedrinho, mostra pra ele. O Alex e os irmãos gêmeos repetiam em coro: Bate nele Pedrinho, mostra que você não é molenga.
A professora Lucila entrou, apartou a briga e nos levou a secretaria... Só retornamos no dia seguinte com nossos pais. Tudo acertado entre eu e o Durval. Ele, daquele dia em diante, permaneceu desmoralizado, desolado na última fileira. Eu, para não nos encontrarmos mais, fui posto na segunda fileira atrás do meu amigo de bola, Alex.
Enfim, correram-se anos. Crescemos. Me aconteceram muitas coisas. Coisas boas, coisas más. Hoje sou cronista do diário da tarde, me formei em jornalismo, tenho mulher e filhos. Ele? Não sei. Deve estar por aí, talvez na última fileira de algum banco de faculdade ou de algum escritório, ou (sabe lá Deus) roubando bolinhas de gude de alguma criança na rua lá de casa.



*Este conto foi publicado pela primeira vez na revista Palavra e Mutação da cidade do Porto (Portugal)